Sábado é um dia que em o barulho dos motoqueiros domina a rua onde moro, principalmente nas duas primeiras semanas do mês. São os dias mais trabalhosos dos entregadores de comida, que ficam entre idas e vindas até perto da 1h. Perto de casa tem um lugar que vende pizza e esfirra e outro que vende comida japonesa. Comer pizza na entrada do fim de semana e ao longo dos dois dias de folga é um hábito bem presente na casa das pessoas, pelo menos as que moram perto de casa. O pessoal aproveita. E não estão errados.
Minha namorada, a Júlia Gavillan, e eu criamos o hábito de cozinhar alguma coisa no fim de semana em um esquema de revezamento. Em um sábado é um salgado, no seguinte é um doce. Tímido, comecei ajudando a misturar os secos, depois a bater no liquidificador os molhados, a picar cebola, tomate, ralar qualquer outra coisa. Enfim, coisas pequenas que a inexperiência na cozinha não se importa se não sair picado de maneira uniforme ou se for comendo alguns pedaços pelo meio do caminho.
Pois bem. Após algumas semanas, chegou o dia. Aliás, foi durante a semana, no planejamento — sim, nós planejamos — do que faríamos que a Júlia veio com a ideia/vontade: “Vamos fazer pizza?”. “Sim, pode ser”, respondi. Geralmente é minha resposta padrão para a ideia do que comer, afinal não importa muito o que fazer, mas o fazer em si.
Uma das coisas mais trabalhosas é correr atrás dos ingredientes, já que alguma coisa é mudada pelo caminho sempre. Mas o básico sempre tem em casa. “Você vai fazer a massa hoje”, disse a Júlia. “Eu?”, respondi. “Sim, você não quer aprender? Só vai aprender fazendo”, devolveu, soando um Mestre Miyagi loiro. Lá fui eu fazer a massa. Ela foi fazer o molho de tomate do zero.
Claro que não acertei de primeira. Pacientemente, ela foi me mostrando como se faz. E até que peguei (um pouco) o jeito da coisa. Sabe o primeiro filme do Karatê Kid? Em que coisas banais, como pintar a cerca, era karatê? Fazer massa de pizza é a mesma coisa. É o pulso, não o braço, que faz toda diferença. Provavelmente, demorei uns dez minutos a mais do que o normal para fazer. Os braços estão doloridos, mas fiz.
Depois do descanso da massa, precisava abri-la em quatro partes. A Júlia abriu duas massas e eu duas. E juro: dominar o rolo para abrir uma massa é uma arte muito admirável em que senhoras idosas italianas são mestras nisso. Meus braços estão doloridos de fazer isso pela primeira vez com prática zero. Depois era rechear (escolhemos calabresa, queijo e pimentão), descansar um pouco e forno (sempre pré-aquecido). Ficou pronta em poucos minutos.Ainda quente, fui experimentar e a massa crocante misturada com molho, calabresa e queijo entrou na minha boca naquela explosão de sabores que só comida feita em casa tem, daquela comida que você acaba prestando atenção em tudo que está na boca para sentir todos os sabores. Aquela explosão deliciosa de pizza recém-feita.
Sábado é o dia em que o barulho dos motoqueiros domina rua, e o cheiro de pizza sendo feita entra dentro de casa. Só que, desta vez, o cheiro estava dentro da minha própria casa. As pizzas que fizemos estavam ótimas, sobraram apenas dois pedaços que não estavam mais nas travessas quando acordei. Queria que todo mundo, pelo menos uma vez, pudesse fazer a própria pizza. O esforço é grande. É trabalhoso. A pia fica cheia de louça suja, mas vale cada momento.
Posso dizer que comi uma massa de pizza feita por mim. Sabe aquela frase de “um pequeno passo para o homem, um grande passo para humanidade”?. Me senti esse homem dando esse pequeno passo. Me senti o dono da Lua.

