Sobre Sal, Gordura, Acidez e Calor (Netflix, 2018)


Comer é uma atividade inerente a qualquer ser humano, um hábito necessário desde a infância até o último dia de vida. Essencial para nossa sobrevivência. Na última sexta-feira (12), a Netflix disponibilizou uma nova série-documental chamada “Sal, Gordura, Acidez e Calor”. Baseado no livro “Salt, Fat, Acid, Heat: Mastering the Elements of Good Cooking”, o programa é protagonizado pela autora, chef e pesquisadora culinária Samin Nosrat.

Dos últimos programas sobre comida disponibilizados recentemente na Netflix, “Sal, Gordura, Acidez e Calor” é o mais próximo de “Ugly Delicious”, protagonizado pelo chef David Chang, mas bem diferente de “Somebody Feed Phil”, estrelado pelo roteirista e criador da série “Everybody Loves Raymond” Phil Rosenthal — esse mais um programa de viagem em que descobrir alimentos locais e contar histórias estão no pacote.

Também é muito parecido com “Cooked”, de Michael Pollan, só que menos professoral. Nosrat escolheu quatro lugares do mundo para mostrar como cada elemento é fundamental nessas culturas, como é presente na vida das pessoas e elas nem percebem nesse mundo cheio de comida processada e cheia de conservantes.



Gordura

Para falar sobre gordura, o local escolhido foi a Itália. Com seus queijos, óleo de oliva, presuntos e muitas coisas cheias de gordura, Nosrat visitou uma fábrica de queijos e experimentou diferentes tipos. Depois, claro, fez massa com uma senhora italiana. O resultador me fez desejar macarrão — e realmente, acabei fazendo macarrão com linguiça que matou a fome.

A grande lição do episódio é descobrir — ou perceber — que poucos ingredientes podem fazer uma ótima refeição. E que a gordura pode ser comida numa boa, desde que não haja excessos.



Sal

Pra mim, o episódio mais apaixonante da série foi o segundo, passado no Japão. Não tinha a menor ideia de que, pelo clima, o Japão não consegue produzir sal. Então, eles pegam algas, secam, tiram o sal, passam por um processo industrial até ter o sal. E é necessário pegar muita alga para ter um mínimo de sal.

Nosrat mostra que a culinária japonesa, por essa dificuldade, aprendeu a temperar a comida usando outras coisas, como molho de soja. Aliás, existem poucos lugares em que se produz molho de soja de maneira manual e apenas um lugar que vende o barril ideal para armazená-lo, e tanto é que o dono do lugar precisou fazer um pedido e revelou que era o primeiro desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
    “O que mantém as pessoas fora da cozinha é que elas não têm nenhuma motivação, nenhum poder e nenhum conhecimento, mas se há uma maneira de se envolver em apenas um pouquinho do processo, elas se sentem capacitadas” — Samin Nosrat


Ácido

Para falar sobre ácido, a apresentadora foi até Yucatán, no México, lugar em que frutas ácidas são parte de muitos alimentos do cotidiano. Marinar os alimentos em temperos com laranja, limão e derivados fazem diferença.

É o episódio mais técnico e químico de todos, pois temos a chance de aprender sobre quais alimentos são ácidos. Também é mostrada uma escala, e você — assim como eu — pode se surpreender com a quantidade de alimentos ácidos que estão nas nossas vidas e nem sabemos.


Fogo

Para falar do fogo, Nosrat voltou para o restaurante onde começou a carreira e para mostrar como controlar o calor é fundamental para ter o resultado perfeito dos alimentos — desde carne até vegetais.

Filha de iranianos, Nosrat fala mais sobre si e coloca mais a mão na massa nesse último episódio para preparar um frango no forno e um prato persa chamado tahdig, feito com ajuda de Shahla Nosrat, conhecida por ela como mãe.


Conclusão

Ao longo de todos os episódios, Nosrat está sempre cozinhando e fazendo muitas perguntas sobre os elementos apresentados no episódio. No fim de cada um, há um banquete com o que foi feito ao longo do dia.

“Sal, Gordura, Acidez e Calor” é uma série-documental mais fácil para quem deseja conhecer um pouco mais sobre alimentos do cotidiano e como combinar elementos pode trazer resultados surpreendentes. Samin Nosrat é muito carismática, cheia de energia e disposição para aprender com qualquer um — seja um mestre japonês especializado em molho de soja, seja uma senhora mexicana que faz 250 tacos por dia.

Nostrat fez questão de ter muitas mulheres de diferentes camadas sociais participando do programa. Sinceramente, isso é muito bom de ver.

O ritmo dos quatro episódios é muito bom, então dá para assistir tudo em um único dia. As imagens são lindas. E mais importante: você vai sair mudado depois de assisti-la, disso eu não tenho dúvida.